domingo, 8 de dezembro de 2013

Deixando a cerca pra trás..

1974, os protestos eram raros, a não ser as passeatas da TFP,  e as prisões eram realidade, mas não havia uma conscientizacao ou até mesmo algum tipo de discussão sobre o que rolava, nossa doutrina era outra: musica, dança, acampar, fogueira, jogar vôlei, futsal, ping pong, fotografar e revelar as fotos e ter a cabeça feita com a ajuda de chaverim muito especiais do Shomer.  Todas as ideologias e a parte, nosso lance era a  realização da Aliyah, em grupo e a nível pessoal. Não estávamos muito preocupados com a pecha de comunistas que nos era sempre atribuída na comunidade judaica. Dentro dos contextos e conceitos mais absurdos possíveis e extremos, nossa onda era viajar! Sexo livre, drogas e rock and roll orientavam nossa vida, o estudo não cabia, literalmente.  Sabiamos apenas da convivência com os chaverim, no ken, esportes, os programas e discussões de ideais políticos e filosofia de banca de jornal, mas em especial, Israel e o kibutz. Mesmo assim no Bom Retiro quando visitávamos famílias para vender nossos produtos, discos, livros, vinhos, matzot, calendários,  eles ajudavam muito, no Més da Tnua fazíamos gincanas e campanhas para arrecadar fundos. Nesse ano, nas ferias de verão,  com o dinheiro arrecadad,  mais de 40 companheiros embarcaram para Israel, muitos que não tinham condições familiares para custear a viagem com direito a parada em Amsterdam conseguiram viajar.  Meu pessoal em geral era muito tranquilo, e não gostavam de brigas, mas prender essa galera dentro de um 747 por muito tempo foi complicado. Roubaram o isqueiro de ouro do piloto da KLM e todos os assentos infláveis que puderam levar,  cobertores. Ninguem descia do avião até que não fosse entregue o isqueiro do piloto. Eu sabia quem havia surrupiado o isqueiro, juntamos alguns companheiros e convencemos a turma da pesada a devolver o isqueiro de ouro do piloto e o resto dos artigos furtados do avião. Foram 2 meses de atividade, passeios, seminários, trabalho nem diversas áreas do kibutz. A atmosfera apôs a Guerra de Yom Kipur era contagiante, a perspectiva heróica da Haganah e do Palmach e seus generais heróis nos atraiam como Fidel e sua turma. E não descansei, em  76 consegui chegar lá, no Kibutz Nachshon, como outros companheiros, éramos como seres livres da burguesia, das famílias e nossos problemas...novos trabalhadores do campo e doidões a noite; alguns o tempo todo, outros caretas convictos e muita patrulha ideológica. Queríamos ser como o Che, fazer a revolução, tomar muito rum e fumar charutos, claro que os charutos no caso, sem tabaco e o rum era o Brandy 777 e a revolução se dava na terra e no refeitório coletivo, nas roupas coletivas, no sabonete e nas mulheres coletivas...
Muitos de nós conhecemos a dura realidade do comunismo, durante alguns anos, tiramos pedras da terra com as mãos, servimos anos no exercito, em unidades de combate, na elite militar, tentando ser parte do tal Palmach, que já não existia mais. Que revolução ajudamos a fazer em Israel, nós idealistas comunistas, muitos membros da da internacional socialista e fundadores do PAZ AGORA? Com o final da Radio Kol HAshalom que transmitiu do mar durante anos a revolta de Abby Natan, ficamos tristes na Terra onde deveríamos ser felizes, onde conhecemos o povo árabe e sua cultura e a quem deveríamos absorver coerentemente com nossa ideologia de amor a natureza e a Terra, segundo Borochov: a todos "de acordo com as necessidades e a todos de acordo com as possibilidades". Descobri que isso vale apenas para os judeus. Do kibutz antigo idealizado por nós que foi privatizado, ficaram apenas as casas e cercas, fabricas e campos trabalhados por trabalhadores tailandeses. O modelo do kibutz foi seguido pelos assentamentos nos territórios, o que comprova minha tese de que o kibutz serviu apenas para marcar as fronteiras e conquistar territórios e não integrar os judeus em sua terra com o resto dos habitantes, ao contrario. Localizados em locais e terras produtivas, parte de uma sociedade antes muito fechada, onde alguns velhos esperam por Stalin e seus filhos e netos hoje desejam a privatizacão do patrimônio para poder negociar as casas. Todo um segmento educativo, social e político em Israel que foi vital para a existência do estado, que torneou os contornos das fronteiras e as relações com as lideranças palestinas no exílio, se tornou competitivo demais e capitalizado. A maioria abandonou o pensamento de justiça social e internacionalismo, e se tornou uma nova burguesia em ascensão e ainda por cima transformou a Itnachalut antiga do kibutz de esquerda para a direita nacionalista, uma ideia legal que virou fora da lei. Somos nossos piores inimigos, sempre.



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