sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Não acredito em milagres, nem fadas, nem Intifadas.

1998, durante o primeiro mandato do Bibi Netaniahu, participei de um seminário do Meretz em Israel, representando o Centro Cultural Mordechai Anilevitch. Jornalistas, repórteres, intelectuais, ativistas de diversas organizações sionistas de esquerda, e de movimentos religiosos humanistas como o CJB, e na sua maioria já veteranos como Dona Clara Wertman, Reginaldo Heller, e outros argentinos, uruguaios, ingleses, franceses, todos ansiosos para o ponto alto do evento que seria a visita ao Palacio do Arafat em Gaza, onde seriamos recebidos pelo próprio. Não tive esse desprazer, felizmente.
Saímos cedo do hotel em Jerusalém e descemos via o Vale do Jordão até a fronteira com Gaza. No caminho fomos avisados que Arafat não poderia nos receber em pessoa pois estava recebendo o presidente da Romania. Boa desculpa diplomática. Passamos pelo checkpoint, onde fui avisado do perigo que corria ao entrar ali.
A ultima vez que havia estado ali, em 80, eram acampamentos de refugiados, favelas. Nossos jeeps eram abertos, mas bem equipados e os soldados treinados para enxergar de longe...as bandeiras eram proibidas, a lei era marcial em todos os territórios. Quase vinte anos depois, com os acordos de Oslo, Gaza havia se transformado. Subimos no ônibus palestino, o guia de microfone, muito simpático nos mostra os progressos que estao sendo feitos na região. Passamos por Khan Younes, um dos maiores campos  de refugiados do mundo: os mesmos rostos que vi na epoca das patrulhas e operações que participei ali dentro dessa enorme favela, as mesmas crianças e velhos com as mesmas caras de um sofrimento complacente.
Chegando ao centro de Gaza, o ônibus desvia do percurso e o guia nos pede para ficar sentados com o cinto apertado, estamos desviando do Hamastan, o Hamas controla o centro de Gaza e Arafat fica em Rafiah, na praia...jeeps com guardas nos escoltam, todos muito corteses. Chegamos ao Palácio, onde fomos recebidos no gabinete do ministro da justiça, ironia, Freih Abu Medien. Reproduzo o diálogo aqui."Como vocês pretendem criar um estado palestino vizinho, com um único poder central, com tantas divisões internas, nos territórios, em Jerusalém, Gaza?" pergunto eu, enquanto filmo com minha câmera. "Pretendem construir tuneis entre Ramalah e Rafiah? "e ele responde firme entre um sorriso, "as próximas gerações vão eliminar as fronteiras."
Essa frase pode ter um duplo sentido, mas preferi tentar compreender melhor o que estava acontecendo naquele momento. No almoço, no luxuoso restaurante do clube presidencial, uma nova surpresa, cheio de soldados nas mesas almoçando e vigiando. Eram nossa segurança, mas pelo modo como deixavam seus fuzis encostados na parede e relaxavam fumando cigarros, tomando café e chá com menta, dificilmente estariam ligados em algum ataque possível. Como quem não quer nada, fumando meu charuto depois de uma lauta refeição tipica com peixes, humus, saladas e pimentas como só eles sabem fazer, fui trocar uma idéia com os soldados. Olhei os M16 encostados na parede, largados, todos com a marca de Tzahal, números de série conhecidos, talvez um desses já tivesse passado pelas minhas mãos. Com a intenção de fortalecer o Fatah, frente a crescente atividade do Hamas e outros grupos islâmicos apoiados por outros países árabes e pelo Iran, foram entregues ao Fatah dezenas de milhares de armas antigas, que fariam muito sucesso em qualquer lugar da Africa e deporiam qualquer governo.
A gente voltou para Jerusalém e Arafat e sua turma, continuaram a roubar seu próprio povo e o banco da Palestina, inúmeros relatos de irregularidades e corrupção. Os escândalos não pararam de surgir, como o caso do cimento comprado por Israel de uma empresa de propriedade do ministro dos negócios da AP, e outras duas empresas de funcionários do governo da AP. Em 1999, já havia confiscado o dinheiro do Banco da Palestina e até o carro do presidente do banco foi tomado por Arafat. O que foi feito com esse dinheiro e o prejuízo que essa liderança errónea trouxe para Israel e para os povos da região, com o financiamento da Intifada, explodindo pessoas inocentes de ambos os lados e  literalmente e trazendo novas técnicas do terror internacional. Incitando o ódio.
Foi com armas "doadas" por Israel e dinheiro roubado do povo palestino que confiou numa recuperação econômica após os "acordos de paz", que Arafat se vingou de Sharon. Difícil afirmar como esses recursos foram desviados para organizações terroristas ligadas ao Fatah por laços de irmandade. Mas muita gente se explodiu contando com um dinheiro extra para a familia no Ramadan.
O prejuízo causado por uma negociação errada, privilegiando extremistas e atribuindo prêmios Nobel de Paz para corruptos como Arafat, até hoje permanece: as organiza coes Shiitas e Sunitas não param de crescer e a Guerra entre Gog e Magog está na nossa cara. Arafat foi tão nocivo para seu povo, que o Fatah foi rapidamente engolido em Gaza. ANP perdeu e vem perdendo onde Israel não intervem duramente, no que muitos chamam de Kibush. A ocupação dos territórios permite o controle das atividades do terror entre os palestinos. Os muros horriveis, feitos com o cimento palestino que nao pagou imposto na AP, as cercas e inúmeros checkpoints, apenas conseguiram diminuir os ataques sucessivos perpetrados por infiltrados vindos de antros terroristas em Jenin, Nablus, mas aumentaram em muito o ódio dos moradores da região contra os "judeus" como eles nos chamam em geral. Nenhum soldado ou cidadão israeli gosta de fazer esse trabalho, mas a intervenção em diversas cidades árabes como Hebron, permitem um controle das atividades dos extremistas islâmicos das diversas facções existentes. Sai o exercito do controle dos territórios na Cisjordânia e teremos o Hamas e a Jihad ali, com as armas do Fatah. Seria o fim do Fatah e de outros segmentos moderados.
O conflito não é territorial, não mais. São os fiéis contra os infiéis. Primeiro eles precisam se matar entre eles, para escolher o Califa que ira reinar. Ai depois todos atacam os USA, Russia, Israel, Turquia, a Europa e tomam o mundo. o Califa reina em Meca. Não consigo acreditar em algum tipo de acordo entre Israel e uma assim chamada Palestina, pela profunda divisão que existe entre os diversos clãs, tribos e hamulas (familias). O povo palestino é um fato real, criado por Israel e pelo povo judeu. Mas está longe de ser algum tipo de estado e caras como Abu Mazen não fazem a cabeça e sim os mullas e sheiks que mandam na galera, e o futebol. Temos responsabilidade em fomentar a integração de nossas culturas e possibilitar que os povos possam viver onde cada um desejar, sem muros, dentro de uma convivência pacifica, respeitando as diferenças e procurando os pontos comuns. Como um estado democrático, de cultura laica e Leis rígidas para todos, incluindo todos, pode chegar algum tipo de acordo com uma outra parte, quando não existe um estado de facto com quem dialogar. Estão totalmente envolvidos no momento com a ameaça do Iran, os Sunis preocupados em explodir os Xias e vice versa, os Alawitas no meio e os cristãos maronitas, coptas, pedindo pelo amor de Deus para não serem decapitados. O conflito já chegou ao Líbano. Já causou baixas em tropas de Israel e os hospitais do norte atendem feridos da Síria e do Sul do Líbano. Ai esta o resultado de 30 anos de politica errónea, baseada nos acordos de paz com terroristas. Somente as próximas gerações, se sobreviverem, poderão mudar a região e derrubar os muros que nos separam. Sem mais fúria...
*Sergio Nedal Riss, é fotógrafo profissional, cineasta e não tem medo de colocar o dedo na tomada.

Lula Grelhada com Arroz da Tinta